A ArrowPlus
Empresa Gazela pelo segundo ano seguido – e o que isso custou
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Chegou por email, como estas coisas chegam. Sem tambores. Abre-se a caixa de entrada entre duas outras coisas e lá está: a ArrowPlus é Empresa Gazela pelo segundo ano consecutivo.
A cerimónia é hoje ao fim da tarde, no Teatro Municipal de Ourém. Vou com o Pedro Oliveira, um dos membros mais antigos da casa – e há uma razão para ser com ele, que fica para o fim.
O que dissemos há treze meses
Em maio de 2024, no comunicado da primeira distinção – a do apuramento de 2023, em que entrámos ao lado de outras 134 empresas da região[2] –, disse uma coisa que na altura me pareceu arriscada:
O Gazela obriga-nos a crescer 20% todos os anos, mas mal era que o nosso valor crescesse apenas isso. Temos que ir muito além disso, pelo menos por mais cinco a sete anos. Contem com a Arrow a ser Gazela novamente no próximo ano, por mais difícil ou inusitado que isto possa parecer.
Escrever isto num comunicado é fácil. Cumpri-lo não era garantido, e houve dias em que preferia não ter deixado a frase no papel. Deixei. Treze meses depois, aconteceu.

O que é preciso
A CCDR Centro faz este apuramento desde 2012 e publica a lista completa, com o nome de cada empresa e o respetivo município. Para entrar é preciso cumprir as cinco condições ao mesmo tempo[1]:
- Ter sede na região Centro.
- Ter sido constituída dentro de uma janela de anos definida para cada apuramento.
- Crescer mais de 20% no volume de negócios em cada um de três anos seguidos.
- Empregar pelo menos 10 trabalhadores.
- Faturar 500.000,00€ ou mais.
Ao mesmo tempo é a expressão que faz o trabalho todo. Falhar uma chega para ficar de fora. E a mais traiçoeira é a terceira: não é a média dos três anos, é cada um dos três. Um ano mau entre dois excelentes elimina a empresa, por melhor que seja a média.
Para se perceber quanta gente fica de fora antes sequer de se falar de crescimento, basta o critério dos dez trabalhadores. Em 2023 havia em Portugal 1.510.274 empresas não financeiras, e apenas 55.513 sociedades empregavam dez ou mais pessoas[3]. É menos de quatro em cada cem. Dois terços do tecido empresarial português são empresários em nome individual, com em média uma pessoa e perto de 18.900,00€ de faturação por ano[4] – a uns bons vinte e seis passos do limiar do meio milhão.
O que aconteceu nestes anos
A pergunta que eu próprio me faço é se houve um momento de viragem. Não houve. Houve três coisas ao mesmo tempo, e nenhuma delas é uma história bonita de contar.
Fomos ao mercado com muito mais intensidade do que antes: mais presença, mais conteúdo, mais eventos, mais horas. Alargámos o que ensinamos – lançámos o CIR, que trouxe os REITs para dentro da casa e abriu uma porta a quem nunca ia comprar um prédio. E continuámos a formar gente: passámos as dez mil pessoas formadas, o que a dada altura deixa de ser um número de marketing e passa a ser uma responsabilidade.
A parte que ninguém publica é que nada disto é um mercado fácil. Já o disse noutro sítio e repito-o aqui: não aconselho ninguém que procure um modelo de negócio simples a entrar na formação. Houve anos em que trabalhei sete dias por semana, às vezes catorze horas por dia. Não digo isto como medalha – digo porque a alternativa é deixar ficar a ideia de que estes números aparecem sozinhos.
O que custou
Não foi o dinheiro. Foram as pessoas.
O mais duro destes anos foi contratar e integrar quem aguentasse o ritmo. Na Arrow, andamos a uma velocidade muito alta, e isso não é para toda a gente – não por falta de competência, mas porque nem toda a gente quer viver assim, e faz bem. Descobrir isso leva meses, e cada vez que se descobre é um recomeço.
Depois há a geografia. Fazer isto a partir da Guarda, uma cidade de quarenta mil pessoas, custa. Estamos longe dos polos onde as coisas acontecem. Viajo o país todo e trabalhamos com gente de norte a sul, mas quem garante que a localização é indiferente na era do trabalho remoto nunca tentou convencer um especialista a vir para o interior.
E os números dão-me razão, o que neste caso não me alegra. Das 181 gazelas da região Centro deste ano, 23 são de Leiria e três são da Guarda. Setenta e um por cento estão nas quatro sub-regiões do litoral, e a própria CCDR escreve que isso decorre de haver lá maior densidade de empresas[1]. Três. É esse o tamanho do clube.
Naqueles anos tivemos sempre mais de dez pessoas com contrato de trabalho – a certa altura dezanove –, que é um dos critérios. Dito assim parece um número administrativo. Não é: é a folha salarial a sair todos os meses, cresça ou não cresça a faturação.
Porque é que o segundo ano é a parte rara
Desde 2012, a CCDR Centro distinguiu 869 empresas diferentes, num total de 1.209 distinções[1]. A conta sai sozinha: há, no máximo, 340 repetições para distribuir por 869 empresas. Pelo menos três em cada cinco entram na lista uma única vez.
A razão é aritmética. Quem cresce 20% este ano põe a fasquia mais alta para o ano seguinte, porque a base aumentou. No gráfico acima, manter os mesmos 20% obrigava a mais 144.000,00€ no terceiro ano contra 100.000,00€ no primeiro: a mesma percentagem, e não o mesmo esforço. Repetir não é fazer outra vez o que já se fez – é fazer mais do que isso, sobre um número maior.
E convém dizer contra o que se está a medir. Em 2023, o volume de negócios do conjunto das empresas portuguesas cresceu 4,9%[4]. O critério da gazela pede quatro vezes isso, três anos seguidos.
O Banco de Portugal foi contar quantas o conseguem. Das cerca de 430 mil empresas em atividade no país, perto de 21 mil – 5% do total – tinham crescimento médio anualizado do volume de negócios superior a 20% durante três anos consecutivos. Sendo ao mesmo tempo jovens, restavam 4,4 mil: 1%[5].
E o INE, que usa uma definição mais generosa do que a da CCDR – conta crescimento do emprego a 10% ao ano, e não faturação a 20% –, apurou em 2023 665 empresas gazela em todo o país[3]. Seiscentas e sessenta e cinco, em Portugal inteiro, pela régua mais branda que existe.
O que isto diz a quem pensa comprar um curso nosso
Pouco, se for lido como um troféu. Alguma coisa, se for lido pelo que mede.
Diz que sabemos fazer aquilo que ensinamos a fazer. Não se cresce a este ritmo, três anos seguidos, com uma operação que não sabe o que anda a fazer – não há discurso que sustente uma conta dessas. Se o método não funcionasse connosco, a lista publicava outro nome.
O que a distinção não diz é igualmente importante, e já que o assunto são números é justo pô-lo por escrito: nenhum dos critérios olha para o lucro. Mede-se quanto se vendeu, não com que margem. Quem apresentar isto como prova de rentabilidade está a esticá-lo.
E há um dado no próprio relatório da CCDR Centro que devia estar em todos os artigos sobre o assunto, incluindo este: de todas as empresas alguma vez distinguidas desde 2012, estima-se que cerca de 8% já não existam – na maioria dos casos por terem cessado atividade[1]. Oito em cada cem empresas que, num certo momento, estavam entre as que mais depressa cresciam na região. Crescer depressa consome tesouraria: vende-se mais, compra-se mais, contrata-se mais, e o dinheiro sai antes de entrar. Uma empresa pode crescer até morrer.
E o próximo ano
Há treze meses prometi um segundo. Não vou prometer um terceiro.
Crescer 20% todos os anos torna-se, a certa altura, impossível – não por falta de vontade, mas porque a base sobre a qual se cresce não pára de aumentar. E basta um ano abaixo dos 20% para a porta se fechar: o critério não perdoa uma média boa com um ano mau lá dentro.
Portanto a frase honesta, hoje, é esta: não sei se voltaremos a esta lista. Sei que aquilo que nos põe cá continua a ser o que fazemos todos os dias. Se a lista nos incluir outra vez, óptimo. Se não, terá sido porque a matemática apertou, e não porque deixámos de fazer o trabalho.
A quem pertence
No ano passado escrevi que este prémio não era meu, nem da gerência, nem dos sócios: que era dos colaboradores, em especial dos mais antigos, que são a essência desta empresa. Não mudei de opinião. É por isso que vou a Ourém com o Pedro.
Fontes
- As 181 empresas gazela da região Centro em 2024. Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, I.P. ccdrc.pt. Fonte para os critérios cumulativos do apuramento de 2024, para as 181 empresas identificadas e para o balanço desde 2012: 869 empresas diferentes, 1.209 distinções e cerca de 8% que já não sobreviveram. É onde consta a DARKPURPLE LDA, no município da Guarda.
- As 135 empresas gazela da região Centro em 2023. Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, I.P., maio de 2024. ccdrc.pt. Fonte para o apuramento de 2023, o primeiro em que a DARKPURPLE LDA – a sociedade que detém a marca ArrowPlus – consta da lista.
- Empresas em Portugal – Demografia das Empresas 2023. Instituto Nacional de Estatística, 30 de janeiro de 2025. ine.pt. Fonte para as 55.513 sociedades não financeiras com dez ou mais pessoas remuneradas em 2023, para as 665 empresas gazela apuradas em todo o país nesse ano segundo a definição do INE, e para as taxas de sobrevivência das empresas nascidas.
- Empresas em Portugal – Resultados Definitivos 2023. Instituto Nacional de Estatística, 13 de dezembro de 2024. ine.pt. Fonte para o universo de 1.510.274 empresas não financeiras, para as 997.523 empresas individuais e o que empregam e faturam, e para o crescimento de 4,9% do volume de negócios do conjunto das empresas em 2023.
- Análise do dinamismo empresarial em Portugal. Estudos da Central de Balanços n.º 35, Banco de Portugal, fevereiro de 2019. bportugal.pt. Fonte para as cerca de 21 mil empresas – 5% do total – com crescimento médio anualizado do volume de negócios superior a 20% durante três anos consecutivos, e para as 4,4 mil que o faziam tendo até cinco anos de idade. Dados de 2017.
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